Mais água

TECNOLOGIAS SOCIAIS

As famílias rurais que vivem no Semiárido brasileiro, em geral, têm sua dieta alimentar afetadas tanto no aspecto da quantidade quanto no da qualidade, em decorrência principalmente da irregularidade das chuvas. Em anos de grandes secas, a situação é ainda mais preocupante, pois a pouca água acumulada nos barreiros, açudes e cisternas não são suficientes para permitir a produção de alimentos para o consumo das famílias e dos animais. Em face destas dificuldades, A Organização Filhos do Mundo – FEME em parceria com o Governos do Estado da Bahia através da SJDHDS(secretaria de Justiça desenvolvimento humano e desenvolvimento social) e a CAR / SDR(secretaria de desenvolvimento rural) tem apoiado ações visando à melhoria das condições de bem estar das famílias em situação de extrema pobreza, por meio do Plano Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (PNSAN). No meio rural, essas iniciativas têm o objetivo de estruturar a produção de alimentos, principalmente para o consumo próprio, usando tecnologias adequadas à realidade local, ao perfil do público beneficiado e à sustentabilidade ambiental. Dentre os projetos que estão sendo realizados pela FEME, o Programa Cisternas é um dos principais propulsores na região do vale do Jiquiriçá, a construção de cisternas para captação e armazenamento de água da chuva para produção de alimentos esta sendo um grande propulsor da economia regional.

Esse projeto esta inserido no Programa Água para Todos, que é uma das ações que compõem o Plano Brasil Sem Miséria (PBSM), em seu eixo Inclusão Produtivo Rural. Estas obras(tecnologias sociais) que estão sendo implantadas pela FEME, trata-se das cisternas de produção de 52.000 litros (tipo calçadão e enxurradas), Barragem Subterrânea, Barreiros Trincheiras Familiares e Barreiros Trincheiras Comunitários, Tanque de Pedra e Limpeza de aguadas, que, além de garantir variedade no cultivo de frutas e hortaliças para suprir as deficiências nutricionais das famílias, também contribui para a mudança dos hábitos alimentares dos agricultores do Semiárido Baiano, mas especificamente no vale do Jiquiriçá. As tecnologias sociais têm como função principal captar e armazenar água das chuvas, que será usada para manter a produção de frutas e hortaliças durante todo ano e, assim, contribuir para a melhoria da dieta alimentar das famílias rurais. A água armazenada em uma cisterna de produção, com capacidade de 52 mil litros, se bem manejada, é suficiente para manter um pequeno pomar (em torno de 30 fruteiras) e de 2 a 4 canteiros de hortaliças, com, em média, 12 metros quadrados de área cultivada. A produção de frutas e hortaliças para consumo próprio, com o uso da cisterna 12 de produção, está baseada em princípios que se assemelham aos da agricultura de base agroecológica, que tem entre suas características a diversificação e a utilização de tecnologias que mantenham ou alterem pouco as condições de equilíbrio entre os processos de produção e o ambiente. Para que a água da cisterna seja usada para as plantas, necessariamente a família deve dispor de outra cisterna para captar e armazenar água para o consumo próprio, conforme ilustrado no modelo esquemático.

O Programa Mais Uma foi lançado em 2007, tornando-se uma das ações do Programa de Formação e Mobilização Social para Convivência com o Semiárido. Com isso, surge da premissa de se tratar em conjunto o acesso e manejo sustentável da terra e das águas no semiárido, e, para tanto, é preciso garantir esses dois elementos, terra e água. Conforme sua implantação é um projeto de convivência com o semiárido que pretende assegurar à população rural o acesso à terra e à água, tanto para consumo da família e dos animais, como para produção de alimentos, ensinando-se a cuidar da terra de maneira sustentável. O “1” significa a garantia de uma terra para produção (animal e vegetal). O “2” corresponde a dois tipos de água – a potável, para consumo humano, e água para produção agropecuária. O objetivo do programa é fomentar a construção de processos participativos de desenvolvimento rural no semiárido brasileiro e promover a soberania, a segurança alimentar e nutricional e a geração de emprego e renda às diversas famílias de agricultores de base familiar no Vale do Jiquiriçá, através do acesso e manejo sustentáveis da terra e da água para produção de alimentos. Dentro do programa Mais Água – projeto cisternas o governo Federal e Estadual estabelece alguns critérios para que as famílias possam ser atendidas pelo programa.

  • Famílias com acesso à água para consumo humano, a exemplo das cisternas de placas para consumo humano 16.000 l;
  • Mulheres chefes de família;
  • Famílias com crianças de 0 a 6 anos de idade;
  • Crianças e adolescentes frequentando a escola;
  • Adultos com idade igual ou superior a 65 anos;
  • Portadores de necessidades especiais;

 

Principais tecnologias sociais que estão sendo implantadas pela FEME:

Cisternas calçadão.

As cisternas calçadas seguem o mesmo padrão de construção das cisternas de placas de 16.000. No entanto, a capacidade e a forma de captação de água desta cisterna são diferentes. A água da chuva é captada por meio de um calçadão de cimento de 200 m², construído sobre o. Com essa área do calçadão, 300 mm de chuva são suficientes para encher a cisterna, que tem capacidade para 52 mil litros. Por meio de canos, a chuva que cai no calçadão escoa para a cisterna, que deverá ser construída na parte mais baixa do terreno e próxima à área de produção. Outra serventia desta tecnologia é a utilização do calçadão para secagem de alguns grãos como feijão e milho, raspa de mandioca, entre outros. A água captada é utilizada para irrigar quintais produtivos, plantar fruteiras, hortaliças e plantas medicinais, e para criação de animais.

  1. b) Barragens subterrâneas.

São construídas em áreas de baixios, córregos e riachos que se formam no inverno. Aproveita as águas das enxurradas e de pequenos riachos disponíveis na região, armazenando-a no solo. Sua construção é feita escavando-se uma vala até a camada impermeável do solo, a rocha. Essa vala é forrada por uma lona de plástico e fechada novamente, criando uma barreira que “segura” água da chuva que escorre por baixo da terra, deixando a área encharcada. Desta forma a umidade do solo adquirida no período chuvoso permanece por um tempo maior no solo, onde podem ser plantadas fruteiras, hortaliças, forragem e outras culturas anuais. A barragem subterrânea ainda permite uma segunda tecnologia em sua área, na área da barragem subterrânea pode ser aberto um poço raso, cuja água pode ser utilizada para fins diversos. O poço deve ser construído a, aproximadamente, cinco metros de distância do barramento. Sua água pode ser utilizada para pequenas irrigações, possibilitando que as famílias produzam durante o ano inteiro. No inverno, é possível plantar culturas que necessitam de mais água, como o arroz e alguns tipos de capim. Dependendo do tipo de cultura implantada pode-se ter mais de uma colheita por ano.

  1. c) Tanque de Pedra.

São fendas largas, barrocas ou buracos naturais, normalmente de granito, construídas em áreas de serra ou onde existem lajedos, que funcionam como área de captação da água de chuva. O volume de água armazenado vai depender do tamanho e da profundidade do tanque. Para aumentar a capacidade, as vezes os lajedos são escavados com o auxilio de maquinas, sendo erguidas paredes de alvenaria, na parte mais baixa ou ao redor dos afloramentos rochosos, que servem como barreira para acumular mais água. É uma tecnologia de uso comunitário. Em geral, cada tanque beneficia 10 famílias. “Constitui um excelente reservatório para armazenar água das chuvas para uso humano, animal e agrícola”.

  1. d) Bomba d’água popular (BAP).

Aproveita os poços tubulares desativados para extrair água subterrânea por meio de um equipamento manual, que contém uma roda volante. Quando girada, essa roda puxa grandes volumes de água, com pouco esforço físico. Pode ser instalada em poços de até 80 metros de profundidade. Nos poços de 40 m, chega a puxar até 1.000 litros de água em uma hora. É uma tecnologia de uso comunitário, de baixo custo e fácil manuseio. Se bem cuidada, pode durar até 50 anos. A água da bomba tem vários usos: produzir alimentos, dar de beber aos animais e usar nos afazeres domésticos. Geralmente, cada bomba, beneficia 10 famílias.

  1. e) Barreiro trincheira.

São tanques longos, estreitos e fundos escavados no solo. Partindo do conhecimento que as famílias têm da região, o barreiro trincheira é construído em um terreno plano e próximo ao terreno da área de produção. Com capacidade para armazenar, no mínimo, 500 mil litros de água, o barreiro trincheira tem a vantagem de ser estreito, o que diminui a ação de ventos e do sol sobre a água. Isso faz com que a evaporação seja menor e a água permaneça armazenada por mais tempo durante o período de estiagem. Neste sentido, esta tecnologia permite à alimentação da família, garantindo a soberania e segurança alimentar. Além disso, o excedente do que é produzido é comercializado, garantindo assim, a geração de renda para as famílias agricultoras.